Este é um texto que fiz para um projeto de 3 meses de idade. Faltam muitos dias ainda. Assim - e se conseguir- irei mostrar aos interessados quando efetuado.
Leiam, caso queiram, claro.
Beijos, Baiano.( falta uma simples correção)
A minha epifania me visita como uma gangrena ao paralítico. “Todo amor é eterno, se acabou, não era amor”, disse o inapelável Nelson Rodrigues. A sonoridade desta frase é, dentre os ecos espectrais, a mais doce. As palavras cáusticas estão ligadas num frêmito ardor. Ainda hoje estava eu andando para comprar o remédio pra minha Renite( Sim, ela começa com maiúsculas. É uma pessoa, Dona Renite. Tem mais vida do que eu e é mais dona de mim do que um dia já fui. Todo dia, fielmente como uma gueixa de bordel, ela visita a clientela fixa.) quando avisto de soslaio um caso de jovens amores. Tomavam sorvete, um único e saboroso sorvete que padecia nas suas bocas. Os beijos gelados ardiam, faiscavam, invisíveis aos olhos curiosos. O amor jovem, realmente, me fascina. As juras que todo e qualquer casal prega como oficio perene é, sem delongas, o gozo metafísico do amor. Quem ama, de verdade, deve e, repito, é um dever jurar. Amar só é possível com juras. Esta certeza me leva a um caso da minha imaginação secular.
Lembro da Rua Feira de Santana( minha cidade era, e continua sendo, alcovas para várias outras cidades dormirem em formas de rua), esquina com a Amélia Rodrigues, onde vi, pela primeira vez, um casal de namorados. Naquela época o amor era vil e nojento demais para meus olhos. Beijar na boca era perpetuar o pacto de saliva, de mau hálito e, ainda mais, do descaro. Descaro, claro. Nunca, antes daquele dia, aceitei nada que não fosse uma singela ereção pelas minhas amigas de sala. Algumas, estas mais que outras, vestiam suas coxas com shorts nus. O short, naquela época, servia apenas para colorir coxas e nudez. Via-se, entre pernas e fachadas, todo o resplendor da mulher nua, da mulher instrumento sexual. Restava para nós, os abjetos do amor, chorar a saudade nos azulejos do banheiro. Percebo que fugi da minha própria revelação como se esta só me pertencesse enquanto ser nostálgico, mas volto ao ponto em que parei. O casal estava numa profusão carnal lancinante. O muro, se bem me lembro, vergava, numa espécie de arco arauto. A mulher estava com a face das nádegas contra a parede, numa complacente asfixia avessa. Perpetuavam, ali mesmo, toda posse carnal, toda essência humana sobre a virtude pervertida. Faziam, naquele momento, sexo invisível. Sexo de amor. O sexo irrevelável, septo e hediondo.
Volto a falar do Nelson e da sua fé translúcida. O amigo que nunca tive, senão em livros, é de uma sabedoria irrisória. Antes que me fuzilem com veredas sobre a distância atemporal das minhas e das palavras do Nelson, explico: Para o Nelson a sabedoria tinha e, ratifico, foi com certeza o menos importante. Ser gênio das frases, tornando-as siamesas na construção, foi de todo uma tarefa que exigiu uma virtude inexistente, mordaz e vendável. Enxerga a eternidade do amor é abdicar a genitália dos gênios. Nelson foi, com certeza, o mais humano dos argumentos; o mais sutil dos frasistas; e, ainda mais, o único gênio desmemoriado da própria genialidade. Foi através deste lapso memorial que ele logrou dizer as verdades mais solenes deste Brasil. O gênio Nelson morreu na hora do recreio, quando era humilhado por um pão com ovo. Isto mesmo. Um pão com ovo pode ser a maior humilhação de um homem.
Outro dia, caminhando pelo meu passado, encontro toda eternidade que desperdicei. Mulheres que nortearam minhas juras, que me arrancaram do leito sôfrego do horizonte morto. Foram corpos despidos pelas mãos dos olhos; beijados pela mão do sexo; e consumados pelo sexo das mãos. Quantas mulheres, e afirmo isto com certeza divina, perderam sua virgindade no banheiro masculino de mãos e pensamentos. O banheiro é o túmulo da virgindade. É lá que se enterram, sem que elas saibam, toda honra do hímen rompante. E foi justamente no banheiro que floresceu minha mais nova certeza- Toda eternidade é uma forma de amor e não o contrário. Entendam: O ódio eterno não passa do amor vagabundo, salafrário. A pena eterna não é senão o amor derrotado, paralítico. A felicidade é o orgasmo cântico do amor. E o próprio amor é, dentre todos, uma doce e senil argila matricial.








